Tão insensível quanto a pedra mais áspera do jardim de inverno que me lembram dos seus falsos sorrisos. Enquanto a fumaça do café quente convidava o vento para a dança mais harmoniosa que já vira, os olhos vidravam-se em relação ao nada. Mente vazia, olhos cheios de lágrimas. Alma perdida em metade da vida. A juventude ainda lhe pertencia? Responsabilidade pesava-lhe os ombros. Onde estaria o sorriso? Passos leves em direção a janela levaram-na a observar a paisagem. Ninguém estava por ali. Sorria, por favor, sorria. Nem o próprio sorriso a pertencia. Para onde a vida a levaria? Pegou a mala e o guarda-chuvas. Calçou suas botas e trancou a casa. Entrou no trem de ferro sentindo o coração falar que para ali não queria retornar. Ergueu a cabeça quando o trem parara na estação seguinte. Vinte e poucos anos, jeans surrados, camisa de botões perfeitamente desarrumada. Desistira de observá-lo para passar o resto da vida a imaginar o que teria acontecido se apenas um "bom dia" tivesse lhe direcionado. Assustou-se com uma voz rouca perguntado se poderia se sentar. Confirmou com a voz fraca, entorpecida após ser despertada de sua própria mente perturbada. Sem perceber, ele não deixara retornar à aquele lugar assombroso onde seus pensamentos moravam. Sem perceber, um sorriso formava-se por dentro. Sem perceber, uma conversa de viagem, virou amizade de todos os dias que virou sorriso de todas as manhãs, que virou brilho no olhar e que acabou fazendo seu coração voltar a pulsar.
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domingo, março 11, 2012
sexta-feira, janeiro 06, 2012
Abra logo suas asas e volte a voar.
Entre tudo que ele poderia ser pra mim, ele escolheu ser saudade. Sem mais nenhuma vírgula na história. Só um ponto final bem posicionado. E eu finjo não ligar mais para isso. Finjo rir de toda a história, finjo não me lembrar mais do tom da sua voz. E vou levando a vida, esperando que meu atual caso incerto dê certo. Sei que não vai dar, mas não custa nada tentar. A verdade é que você sempre será a pessoa mais certa e errada pra mim. O gosto amargo daquele novembro não sairá da minha boca. Mas estou ficando velha e não devo me preocupar com isso agora. A história agora é outra, escrita por palavras tortas dançando ao lado dos melhores amigos que a vida poderia um dia ter me dado. Minha unica preocupação é viver, sem ligar para quantas vezes o telefone irá tocar no dia seguinte. Sem se importar com o que as vizinhas fofoqueiras vão falar pelas costas. Afinal, só se tem dezesseis uma vez na vida e já perdi muito tempo com os cadarços do tênis prendendo-me ao chão. Está na hora de desamarra-los, de voltar a voar. O tempo que passamos juntos vai ficar pra sempre na minha caixa de papelão etiquetada por memórias, mas você será apenas isso. Memórias de um tempo de sorrisos simples e amáveis. Nada mais que isso. E se um dia voltarmos a nos encontrar, vou sorrir, te dar um "Olá!", virar de costas e pisar fundo lembrando de tudo que ficou para trás.
Observei meu reflexo na tela do celular. Acabei sorrindo para a maneira como após me tornar cinzas voltei à ser o mesmo pássaro de sempre. Sem chão para apoiar os pés, apenas uma imensidão de nuvens de algodão repletas por felicidades, esperanças e amor. Na pequena bagagem de mão, vou levando sorrisos à vontade, amor suficiente para a paz mundial e uma pitada de saudade. Na minha mochila azul vão amigos que eu não trocaria nem por todo o chocolate do mundo. E no coração, vai revivendo a mesma menininha que você conheceu uns anos atrás que só te mandava nunca parar de acreditar. Está na hora de voltar a acreditar nela.
domingo, dezembro 04, 2011
Pensava, libertava-se.
Se cansou dos romances e das lágrimas. Abriu um sorriso verdadeiro aquela noite.
-Quer saber? Foda-se. -Gritava olhando seu reflexo no espelho.
Na mente, tinha a certeza que ela realmente, como ouviu muitas vezes, era boa demais para ele. Não que ela não o ame mais, ela ama, mas de um jeito diferente. Ficou no passado, passado que será lembrado com carinho. O importante hoje não era nada disso. Hoje se tratava do que ela era. E sabia que era muito. Desligou a mente, não queria pensar em nada. Ela percebeu que o amor da sua vida pode esbarrar com você na rua, mas você não percebe porque está ocupado demais sofrendo por quem não merece. E gato, quando ela percebe algo do tipo, esqueça seu nome. Ela não vai mais te ouvir.
Se sentia um turbilhão de emoções. Esforçava-se para enforcá-las e deixar apenas a felicidade viver. Fechou os olhos por um momento. Adquiriu consciência sobre quem era. Memórias passaram rapidamente pela sua mente. Tanta coisa boa, mas eram apenas memórias. Hora de deixá-las guardadas na caixa de papelão etiquetada e ir viver. E que venham as novas pessoas, idéias, risadas e memórias.
quinta-feira, novembro 17, 2011
Latas de amor.
Dias atrás acordei destinado a achar meu rumo. Sorri para a menina que encontrava-se deitada ao meu lado. "Qual era mesmo o nome dela?" Pensei enquanto calçava minhas meias pretas. Peguei meu casaco que estava jogado em um canto qualquer daquele quarto desconhecido por minhas vistas. Ajeitei o cabelo no espelho da sala, saí daquele lugar, desci as escadas. Com a cabeça ainda dolorida da vodca exagerada na noite passada, fui para casa. Joguei as chaves sobre a mesa, entrei na cozinha como quem procurava por alguém em especial. Não encontrei ninguém. O café de ontem ainda estava sobre a pia. Entrei no banho, encostei-me na parede enquanto a água descia pela minha nuca. Deitei na cama e dormi. Ao acordar lavei o rosto e fui me sentar na praça do outro lado da rua. Ver o movimento da rua, sei lá, esfriar os pensamentos. Avistei um homem catador de latinhas virando a esquina. Uma das sacolas que ele carregava arrebentou, espalhando todo o seu conteúdo pela rua. Ligeiramente o mesmo se desesperou em catá-las. Intrigou-me ver todas aquelas pessoas passando por ele sem ajudá-lo. Levantei do banco, ajudei. O homem parecia surpreso por tal ajuda. Agradeceu-me. Ambos viramos as costas para seguir nossos rumos, porém algo me dizia sobre o cansaço que ele não estaria sentindo. Olhei-o novamente nos olhos:
-Aceita um café?
-Ô meu filho, aceito sim. Trabalhar é difícil depois que a idade lhe toma.
Fui até a padaria, comprei alguns sanduíches e um copo de café. Sentei-me ao seu lado enquanto o senhor devorava o lanche.
- É difícil achar alguém com um bom coração assim ultimamente. - Ele me disse.
Surpreendi-me, afinal eu podia ser tudo, menos de bom coração. Alguém de bom coração não trocaria de mulher todas as noites, não se jogaria na vida como eu.
- Quem me dera. -Respondi baixinho.
-Como assim "quem me dera"? Ninguém com um mau coração estaria fazendo tudo isso por outra pessoa que nunca viu.
Sorri e abaixei a cabeça. Conversamos mais um pouco, ele me contou um pouco sobre sua vida:
-Costumava ser um médico renomeado, arrogante, casado, apaixonado por minha esposa e minha filha. Infelizmente, Deus tirou-as de mim em um acidente de carro anos atrás. Desde então me perdi na vida.
-Mas você foi feliz? -questionei-o.
-Tenho meus arrependimentos, como nunca mais ter visto minha mãe após uma briga, mas posso dizer-lhe que sim.
-Então é isso que conta.
-Mas e você, garoto, é feliz com sua vida?
-Sou. -respondi após um longo tempo pensando.
-Certeza?
-Sou arrependido também.
-Pelo que?
-Por ter deixado a garota que mais me fez bem partir.
-Ela é única?
-É, ô se é.
-Então o que esta fazendo aqui conversando com esse velho? -O mesmo sorriu.- Vai lá, corre.
-Quer saber? Eu vou. Obrigado por tudo. Foi um prazer conhecê-lo.
Me perdi virando a esquina. Entrei em casa, juntei algumas mudas de roupas e fui para a rodoviária. Comecei a ver a paisagem urbana se desfazendo. Desci naquela cidadezinha que havia deixado para trás a tanto tempo. Fui até sua casa, bati na porta. O coração pulava, queria ir embora, não fui. Ela atendeu:
-Oi?
-Oi. Tudo bem?
-Tudo indo. E você?
-Tudo horrível sem sua companhia.
-Porque foi embora então?
-Porque eu odiava esse lugar. Agora odeio ficar sem ele.
Ela riu.
-Você é um idiota indeciso.
-Sou o seu idiota. Me desculpa?
-Claro.
-Eu te amo. -Beijei-a.
Acabo me encontrando hoje nessa janela antiga de madeira, preparando-me para meu casamento. Ignorei a parte da vida que dizia para não se apegar. Ignorei qualquer coisa sobre os males que o amor podia te causar. Fechei a janela e fui me casar.
domingo, novembro 13, 2011
Vento na janela.
Sentava-se a beira da janela naquela noite de tempestade, a chuva, o vento, os relâmpagos tocavam o vidro, o sorriso refletia-se sem sentido. Saudade dominava o peito. A sonhadora menina apaixonava-se cada dia mais pelo garoto do sorriso sincero. Recordava-se da história, de tudo que se passou em quase dois anos. E lembrava da primeira vez que ouviu falar do tal menino e de que mesmo sem conhecê-lo, mesmo com um tempero de ciúmes por ter conquistado aquele por quem tinha uma enorme simpatia, acalmou-se e ajudou-o indiretamente naquela noite. Trechos da conversa vêm à sua mente. Seu desespero, que tomou-lhe conta pela tal alma que até poucos minutos desconhecia a existência, voltava ao peito. E desde aquele momento sentiu algo forte, só não sabia se era algo bom ou ruim. Com o tempo o sentimento começava a tomar forma, a fez segurar firme sua mão sempre que foi preciso. A fez voltar atrás de todas as discussões. Hoje sorria sozinha ao perceber as linhas tortas que escreveram o amor em suas veias. Suspirava profundamente ao observar sua fotografia. Ainda não compreendia como poderia existir na vida sentimento tão forte capaz de lhe fazer perceber quando ele perdia-se afrontado em seus pensamentos. Desistia dessa reflexão complexa, pegava o celular:
- Alô? - Ele atendeu.
- Oi, me desculpa?
- Pelo que?
- Por não ter lhe dito o quanto você me faz bem.
O silêncio dominou o telefonema.
- Tô indo ae, me espera. -Ela continuou.
Interfone chamou, a chuva não dava trégua. Ele abriu a porta, saiu debaixo do temporal. Encontrou em meio a tanta água que caia do céu, encontrado em tonalidade alaranjada, o calor de um abraço firme seguido por:
- Eu te amo. Senti saudades.
Ele sorriu. Daquela maneira que só ele sabia sorrir. Beijou-a e disse com um jeito de quem fingia não se preocupar:
- Entra vai, troca de roupa, você vai gripar.
E assim ficaram lá, tomando café, rindo de suas próprias bobagens, matando as saudades que a vida insistia em colocar entre os dois. Ainda não sei muito bem se tudo isso daria mesmo certo, mas havia de dar. Existia amor e isto bastava para trazer-lhes um sorriso essa noite.
segunda-feira, outubro 03, 2011
Ácida primavera.
E por ironia do destino, a vida seguia. O que começou como despedida, hoje prosseguia. O sorriso no espelho me dizia que porra, erramos pra caralho. Mas um errar nunca foi tão bom, nunca foi tão engraçado, tão sensível, tão feito de amor. O "e se" desmanchou-se como balas de limão naquela doce tarde de Setembro. O "minha" tornou-se eterno. A primavera perfumava o céu com flores roxeadas. O sorriso fixou-se na mente ao lembrar que você existia. A saudade passou para desejar-nos bom dia. As lágrimas lavaram a alma, trouxeram novos tempos, novas esperanças. Não sei o que sinto, não sei o que deveria sentir, mas peço de olhos fechados, que essas borboletas navegando por mim sejam amor por ti, por ti, por ti. Sorri. A acidez da distância quilometrada neutralizou-se com a base fundamentada de corações emendados entre si. E eu só sei pensar em ti e esperar que as calmas águas de Dezembro tragam-lhe para mim. Se não for amor, é coisa melhor.
Ventava-se na mente.
Brincava de escrever para dizer que tinha uma alma. Não tinha mais nada. O cansaço, o desgaste, a vida, sugaram-lhe tudo. Até a última gota de sonhos, esperanças e sorrisos. Observava o brilho das estrelas, queria um pouco daquilo, um pouco de magia. Não tinha nada. E os ventos ventavam de um lado para o outro, arrancavam gravetos, brincavam de se vingar de todas as vezes que as janelas não os deixaram entrar. A pipa não se importava, dançava no ar. A menina sorria com o cabelo parecendo flutuar, sua bola de chicletes fazia toda a tarde estalar. Acabei por acreditar que o sorriso voltava como quem olhava pra trás. Aumentei a vitrola de madeira, fui-me embora a dançar.
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